Metodologia

As últimas décadas foram palco de inúmeras mudanças que transformaram as clássicas interpretações da realidade em algo muito mais complexo e interativo. A facilidade em comunicar e o crescimento exponencial das redes, entre enormes benefícios, ajudaram a que problemas que antes eram locais ou regionais, tivessem ganho dimensões globais, com complexidades e interdependências antes inimagináveis.

É neste cenário que a partir dos anos 70, surge o termo wicked problems cuja tradução literal "problemas perversos", nos leva a perceber que estamos perante uma realidade muito complexa.
Embora a definição de wicked problems não esteja ainda estabilizada, é consensual dizer que, verdadeiro sinal dos tempos, estes problemas têm inúmeras interdependências e muitas vezes causas múltiplas levando a que, das tentativas de resolução resultem, por vezes, consequências inesperadas que podem degenerar em novos problemas. Os wicked problems normalmente também não são problemas estáveis e não têm soluções claras. São socialmente muito complexos e não podem ser resolvidos por uma única instituição/departamento.

Perante esta realidade complexa, surge inúmera literatura científica sobre a forma de lidar com esta problemática. Embora diferentes, todas as metodologias defendem que olhar para um problema desta natureza obriga a ter uma visão holística, distante da tradicional visão linear e compartimentada normalmente utilizada.

No trabalho desenvolvido por um grupo de peritos, que deu origem ao relatório "A Fundação Calouste Gulbenkian face aos problemas sociais complexos", refere-se que "o contexto veloz e dinâmico deste século XXI impede que a análise dos problemas se faça como anteriormente, procurando isolar os fenómenos da sua envolvente". Daqui decorre que "um verdadeiro conhecimento do problema, normalmente requer a perspetiva de várias organizações e parceiros e cada pacote de medidas identificadas como possíveis soluções requer normalmente, o envolvimento, o compromisso e a coordenação de múltiplas organizações e parceiros, de modo a poderem ser eficazmente aplicadas".

Como modelo de resposta a este desafio, surge a governação integrada "...referente a uma estratégia política que procura coordenar o desenvolvimento e a implementação de políticas transversalmente a departamentos e agências, especialmente para abordar problemas sociais complexos como exclusão e pobreza, de uma forma integrada (...).
É uma estratégia que procura juntar não só os departamentos governamentais, mas também um conjunto de instituições privadas e de voluntariado, trabalhando transversalmente tendo em vista um objetivo comum".

A governação integrada pode ser territorial ou temática ou pode aliar ambas as perspectivas e, segundo Nancy Robertsvi, recorrer a uma estratégia colaborativa é a forma mais eficaz quando se trata de lidar com os wicked problems, pois promove um forte envolvimento dos stakeholders, soluções mais eficazes, com aderência à realidade e poupança de recursos. 

Segundo o documento Tackling Wicked Problems, propõem-se nove regras para poder enfrentar um problema complexo:

  1. Pensamento holístico e não parcial ou linear;
  2. Abordagens flexíveis e inovadoras;
  3. Capacidade para trabalhar com várias instituições;
  4. Estimular e explicar a necessidade de debater quadros de responsabilização;
  5. Envolver efetivamente os stakeholders e os cidadãos no conhecimento do problema e na identificação das soluções;
  6. Necessidade de desenvolver novas competências;
  7. Melhorar o conhecimento sobre mudanças de comportamentos;
  8. Estratégias e foco claros;
  9. Tolerância para a incerteza e aceitação de projetos de longo prazo;